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sábado, 10 de agosto de 2013

Sempre que eu nos imaginava juntos, eu me via nas ruas da sua cidade, sendo levado por você a visitar os lugares, cantos, bares, sabores e sossegos de sua terra. Você ia me mostrando a casa onde você cresceu, a praça onde você brincava quando criança, o banco onde deu o seu primeiro beijo, (e eu ainda sentiria uma pontinha de ciúmes) a mercearia onde a sua mãe te mandava fazer pequenos favores, a escola onde você iniciou os estudos, a árvore que te oferecia sombra nos dias de muito sol, o quintal do vizinho, que era um lugar proibido, o por do sol visto do ponto mais alto, a rua onde as crianças costumam brincar até os pais as recolherem para tomar banho... Você ia me dizendo coisas de sua vida, enquanto eu só conseguia te olhar, sem dar muita atenção às palavras, mas com um semblante de desejo e carinho. Dávamos risadas, e você, ao final de algumas delas, dizia “bons tempos aqueles”, e eu, sem nunca ter estado ali, falava “verdade, bons tempos mesmo”, e eu me apaixonava de novo pela maneira como você ria, e olhava para você espantado, te achando a mulher mais linda que a tua cidade vira crescer.  

domingo, 20 de janeiro de 2013

Andei me recordando dos amores que não conquistei por pura inanição da minha parte. Por falta de coragem. Pelo medo de um “não”. É, O chamado amor platônico dói. Dói antes de irmos dormir, quando acordamos durante a noite, e até de manhãzinha. Dói quando vemos a pessoa passeando nas ruas com outras pessoas. Dói quando vamos comprar pão à tarde e alguém semelhante à pessoa nos engana. Dói quando abrimos o portão de casa para olhar a rua, com uma esperança displicente de quem sabe a pessoa pudesse estar ali, prestes a te chamar para lhe dar um sorriso ou um abraço, mas não está. Dói enquanto fazemos o caminho de volta para casa e olhamos paras os lados tentando, em vão, avistar a pessoa e por ela, ser visto. Dói enquanto assistimos a um filme e viajamos na estória do casal, que poderia ser a nossa, mas não é. O chamado amor platônico machuca quando queremos mais atenção da pessoa, mas só ganhamos um “oi”, ou uma educação disfarçada. O amor platônico dói enquanto estamos lendo no sofá da sala e uma palavra nos remeta à pessoa, ou enquanto ouvimos música no quarto e a letra nos faz viajar... sozinhos. Dói quando vemos a pessoa se interessando por outras pessoas que não a gente. O chamado amor platônico dói porque no fundo sentimos que a pessoa já nos pertence, mesmo sem nos pertencer.

segunda-feira, 9 de abril de 2012


Tente manter a calma. Respire fundo. Dissolva a raiva. Petrifique o ódio. Queime o ciúme. Lave todos os cantos da decepção. Cante. Perfume-se. Diga que não vá. Não fique. Seja esperança. A vida pede mais, a vida lhe quer mais. Há quem espera te ver, e paisagens que nunca saborearam o teu riso. Guarde-se e se dê a elas. Tenha pensamentos mais altos que os silêncios. Sei que a verdade nua e crua tem um gosto não tão agradável, mas peça outro prato. Mude o vestido, se esse lhe aperta demais. Tire o salto se caso ele machuca os seus calos. Não se feche. Há tantas formas de se ver a vida - observe a rua calada - e há tantas formas de vida a serem vistas – olhe com os olhos de pássaro. Há tantas manhãs de sábado que ainda te querem no colo, e amores que ainda esperam para serem seus. Mantenha a calma e aproveite a beleza...
Menina, o amor magoado não sabe pedir para ficar, mas lembre-se que o amor é uma beleza à parte... e não importa o lugar onde esteja.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Por mim

Descobri que gosto de coisas simples, de gente simples, e de verdade. Descobri que gosto quando o sol entardece a minha saudade e percebi que ser poeta é ser previsível e não o ser, como o amanhã, e que poesia é um tatuar-se fora da pele. Descobri que gosto da casa quando está cheia, mas cheia de quem eu gosto, e também quando está vazia, pois é quando percebo todas as faltas. Hoje sei que gosto de fotos antigas e de gente de bom senso, e que o inverso do meu verso, é mudo, e para que eu o entenda, eu preciso ficar em silêncio. Descobri pessoas que ainda valem a pena. Descobri que sou humano demais, e que sou apaixonado. Descobri que os grandes momentos são bem curtos, e que o vento e a neblina são o único casal que se dispõe a sair de mãos dadas em dias de muito frio. Descobri que nós planejamos a vida sem desconfiar que ela faz o mesmo com a gente. Descobri que não existem segredos (alguém sempre sabe), e me disseram que o conhecimento liberta, mas não me falaram que era uma liberdade para outras prisões. Descobri que paixão é um tipo de problema de vista que não está nos olhos. Descobri que solidão é termos um amor que já deixamos de ter. Descobri que não se discute o gosto quando ele é o mesmo. Descobri que quando sentimos saudade de casa, nosso coração se torna a casa da saudade, e que comer a comida da minha avó é como comer um pedaço do passado. Descobri que não existem mulheres difíceis, há apenas aquelas que não sentem nada por você. Descobri que empatia me permite perceber o valor que há no outro lado da moeda. Descobri que a alegria da festa é gente que vai para festa com alegria.
Descobri que se distrair nada mais é que passar a prestar mais atenção à outra coisa, e que não dá para olhar dentro de dois olhos ao mesmo tempo. Descobri que a princípio não existem pessoas confiáveis, mas sim confianças que são construídas com o tempo. Descobri que toda escolha caminha junto com uma renúncia. Descobri que há pessoas que são para uma noite, mas que eu prefiro as que são para a vida. Descobri que aprender é crescer-se para dentro, e que o que há de mais poderoso nas pessoas é justamente aquilo que elas não podem ver ou tocar (amor, saudade, fé, esperança, medo, paixão, raiva, ciúmes, felicidade, os sonhos...).Descobri que a afinidade nos poupa alguns anos, ao passo que no faz querer muitos outros. Descobri que gosto do que tem vestígio de gente; vestígio de vida. Descobri que minhas descobertas são minhas invenções, e que se eu discordasse de mim mesmo, defenderia isso com a mesma verdade...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011


...quarta, quinta, sexta, semana passada, naquele ano...
É o tempo que passa? Ou são as pessoas? Ou seriam os lugares?
Onde está a minha ligação com a vida? Para onde foi aquela chamada perdida?
Onde estará o meu passado?  E as portas fechadas, o que guardam? E o mar aberto, o que ele liberta?  E as crianças no parque, à tardinha? Eu já estive ali? E as minhas estradas? E entranhas? E tudo o que já foi dito aos ouvidos dos séculos?  E todos os corações que se partiram? E os casais que se amaram loucamente?
E as promessas que não foram cumpridas? E as esperas, que por causa daquelas, se deitaram em esperanças? (e nunca foram chamadas para dançar) E aqueles que nunca vieram? E o sorriso que um estranho me deu num momento de cômica ternura que compartilhamos; o que foi aquilo? Eram apenas dois animais da mesma espécie que se reconheceram, sem se conhecer?  E o bichinho de estimação que te recebia quando você chegava em casa, há quanto tempo já se foi? E aquilo que se quer fazer, mas não se pode? Quando faremos? E as pessoas que amamos, por que as amamos?  E aquelas pessoas que são a nossa personificação de paz? (são lindas, sem mais!) Por que as coisas que são feitas com sentimento e verdade possuem tanto o meu respeito, e o meu olhar? Por que sinto tanta vontade de apertar de novo aquelas mãos?  Por que eu dou gargalhada à vontade, mas quando as saudades apertam (e a vida simplesmente parece que para) eu sinto uma violenta vontade de chorar?  Por que a vida teima em destruir as minhas certezas? Eu não sei... Eu não sei. Tenho a minha forma de ver a vida, e ouvir os silêncios.Tenho o meu jeito de sentir as coisas, e hoje conheço bem a minha voz. Penso que entender é trazer o mundo para a minha linguagem, e não entendo. Às vezes eu sinto medo do tempo: quando tenho em mãos foto antiga, e no espelho, o eu de agora. Sinto medo do tempo que se alimenta de mim, da matéria prima que me faz jovem, do tempo que mesmo se decifrado fosse, ainda sim me devoraria. Tenho medo do tempo que vem enchendo minha memória, do tempo que foi embora, e do que prometeu chegar, mesmo sem dizer se traria boas novas, ou sofrimento... (tempo, por que você não dá um tempo?).
Medo do tempo que me fez crescer, e me ensinou o quanto sou pequeno. Do tempo que me faz achar, por um lado, que a vida é o pior dos inimigos, mas que por outro, é de uma infinita beleza... Às vezes eu sinto medo do tempo, mas é só às vezes, só às vezes, e já faz algum que eu não tenho nada para dizer...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O último sonho


Tive a atenção fisgada por uma reportagem a respeito de pessoas idosas que sofrem com o abandono dos familiares e entes mais próximos, passando a viver numa solidão uníssona.
Vi o caso de um senhor que morava só, num apartamento sujo. Tinha uma vida triste, disse que não tinha mais ninguém, exceto sua esposa, a qual também não morava com ele, mas o visitava de tempos em tempos. Ela, perguntada pela repórter o porquê do abandono, respondeu que o marido a maltratava, e por isso ela o deixara. Confesso que me senti mal ao ver aquela reportagem, o ar de tristeza era maior que a bela vista que se tinha pela janela do apartamento. Fiquei tentando imaginar o teor do sofrimento daquele senhor, tão velho, tão só, sem esperança, vencido pela vida e pelo tempo, sem companhia, sem nada... Meu Deus! Imaginei se naquele homem antigo ainda restava ao menos algum sonho, foi quando a repórter fez a ele esta pergunta, e ele, sem olhar nos olhos dela, com o olhar para o nada, ficou um pouco pensativo, num silêncio longo... e passado um tempo, respondeu que sim. Confesso ter ficado surpreso, imaginei que ele tivesse a esperança de voltar ao convívio da família, dos filhos, netos, mas quando ouvi sua resposta, senti um arrepio invernal. Ele revelou que o último sonho dele era...morrer, simplesmente morrer.
Na pior das situações, seja ela qual for, há sempre um espaço para se ter um último sonho.

sábado, 20 de agosto de 2011

Escrever

Escrever é uma forma de apalpar a esperança,
de dizer que lambi o vento num
palito feito de sonho, e que passeei
 no lombo de uma nuvem, enquanto
sentia o cheiro do azul do céu, e no fim
do dia dormi no colo de uma estrela.
Escrever é um jeito de me explodir e
não mais saber quantos olhos, um dia,
 verão minha expansão. Escrever serve
para dar vida às coisas que não existem
(Eu disse: "Não existem"?).
Escrever é uma forma de permitir
que alguém, num futuro, leia os meus pensamentos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011




Quando criança, sempre ficava à espera do entardecer, pois era nesse horário que, no quintal da vizinha, começava o espetáculo dos pássaros. Muitos se recolhiam ao pé de jaca que lá havia, produzindo uma sonoridade que ecoava até os ouvidos do menino, e chegava  até os seus sonhos, fazendo-o  imaginar tantos outros mundos, outras vidas. Sentia vontade de voar também, e voava, com o sorriso, porém, ficava calado, apenas  escutando toda aquela confusão sadia . Gostava também de observar o por do sol, que alaranjava os seus olhos e o fazia sentir algo que ele só descobriria anos mais tarde: o prazer e o gosto pela poesia. A poesia do dia a dia, das lembranças, angústias, sonhos, a poesia do nada...
Mas anos antes de tal descoberta, ele sentiu-se traído, pois nem perguntaram se podiam destruir e levar embora aquilo que o fazia, às tardes e manhãs, presenciar o evento que já se  habituara: a sinfonia e orquestra passariniana. Simplesmente, derrubaram aquele símbolo, a moradia, o lugar onde, além dos pássaros, outros entes  que voam, também costumavam pousar : as pipas, que se perdiam no imenso e no infinito, até serem capturadas  pelo pé de jaca . Levou tempo para que ele se adaptasse  à nova paisagem, mais ampla, mas sem sombra, mais limpa, mas sem o cheiro bom e as folhas envelhecidas no chão . Tiraram um pedaço da vista daquele menino. Os anos se passaram as lembranças não, e parece ser por isso que hoje, toda vez que ele vê uma árvore grande, ele se sente voando...
...Voando para o passado.

domingo, 24 de julho de 2011



Da mulher que amo nada sou, e dos sonhos que tive, pouco possuo. Vejo as planícies e planaltos por onde o meu coração viajou, e nele há deserto e imensidão até onde a minha vista não alcança, mas também há coisas tão pequenas e sutis que quem pisa nem percebe, e não chega a ver a dor que se esfacela no desprezo. Da realidade que me achava certo, eu vivia como quem nada esperava, ou não sabia esperar, só vivia. De criança, apenas brincava, e minhas preocupações eram, para os outros, meras bobagens, e eu não sabia, mas o gosto das bobagens daquelas manhãs azuis de domingo nunca passou, e hoje, um estranho gosto de espanto me balança a alma, e é o mesmo que sinto quando o vento balança a roupa no varal, ou as folhas nos coqueiros. Hoje, o tal gosto de espanto, que eu desconheço a receita, tornou-me intenso e triste, realista, mas também sonhador, e me fez saber que a mulher que eu amo não existe, e que algumas pessoas são apenas sonhos que a gente tem, e que tudo isso, para os outros, continua a ser uma mera bobagem...

terça-feira, 12 de julho de 2011

Eu pensei que o meu amor fosse esperar, e que haveria tempo para que pudéssemos ajustar os nossos relógios no mesmo ponto. Eu achei que a esperança da sua presença, e esta, pudessem varrer a tristeza e o vazio que me sujam a alma. Pensei  ter encontrado em você uma boa seara para eu plantar as melhores sementes que há em mim. Pensei ser capaz de controlar o ciúme que me morde a garganta. Pensei em nós dois viajando um no outro, e nos perdendo, por nos desconhecermos. Pensei num horizonte de coisas para nós, só não havia pensado que eu fosse desistir tão facilmente da gente, e pelo simples fato de não ter certeza sobre o que você pensa e sente por mim.

(Estou partido, e quem é que nunca esteve? Estou partindo, e quem é que nunca partiu? Mas vou me recuperar, não é para isso que a vida serve?)

sábado, 18 de junho de 2011


O dia adia o nosso encontro, pronto!
Eis as constatações:
De uns tempos para cá a vida
anda tão igual(ou será que fui eu que mudei?)
Nesse período, dias e noites foram
tocados com as mesmas notas, mas em
tempos diferentes.
Na TV, os mesmos programas de sempre,
trazendo o mesmo entretenimento,
e este, produzindo monólogos
que silenciam famílias.
Nas ruas, os carros correm, as pessoas
também, os corações batem, porém não
se tocam, as pessoas se olham mas não se veem ...

No meu peito há confusões
soluços e soluções convergindo
e criando um vento de vida.

Vejo um mundo que se tornou tonto,
(talvez por dar tantas voltas e não chegar a lugar nenhum)
Guerras explodem com proporções enormes, aqui e ali,
mas poucas pessoas sabem, e se sabem, pouco se importam .
O dia-a-dia sem você me permite
perceber o que me envolta, e tudo isso para eu saber
que se você estivesse por perto
eu estaria bem mais feliz.

domingo, 22 de maio de 2011

Interior


Azul, o céu invade a minha janela e eu a ela me incorporo.
Na rua sorrisos vestem-se de lábios pintados
e brincos brincam em orelhas, por detrás de cabelos pretos e
castanhos, vestidos rodam em corpos suados e você de
arco-íris, não sabe o quanto te quero.
A alma trêmula à revoada dos pássaros e vejo seu corpo
arrepiando-se ao passear do vento, ah!Que momento.
Você ao me ver vem me cumprimentar,
o que teria feito eu para merecer tal atenção?
Não sei, mas pouco me importo, apenas te beijo.
Quando você se vai, há um lugar a mais na minha
calçada e uma saudade a mais no meu coração...
Os vestidos, os brincos e os sorrisos começam
a se distanciar, meu irmão pergunta
onde a mãe colocou o copo dele tomar leite
e eu percebo o quanto nossas vidas
estão atreladas ao devenir do tempo
e o quanto o tempo é curto para
aqueles que se divertem.

(Longe da cidade grande a idade ainda se expande um pouco mais devagar...)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Sombra e dúvidas

 
                                
Às vezes eu invento loucuras, loucuras
tantas... Mas não é intencional.
Existe uma parte de mim que
não me pertence, parece ter vida
própria, e que se esconde, mas quando
resolve aparecer, nossa! Me domina.
Na verdade, minha mente mente para
mim, e eu acredito, e por acreditar, tomo
isso como verdade, e sigo, e isso tem
me ajudado a saber quem eu me torno
a cada dia, e ao mesmo tempo me
empurra para tentar descobrir
aquilo que são as minhas suspeitas.
É uma reunião de “Mins”, um diálogo
a sós, a descoberta dos meus “eus”, nus
e crus, tudo isso em face de uma
ininterrupta construção x desconstrução
das minhas verdades, dos meus “sins”, e
dos “nãos”, do que eu vejo em mim
como qualidades e como defeitos, diante
de todos os textos que há no lado de
dentro, e de fora, diante da possibilidade
de fazer muitas coisas, e impossibilidade
de tantas outras, a aceitação das minhas
fraquezas, e o apoio àquilo que me faz
forte, e depois, quando isso vai embora, eu
fico com a impressão de que ele vai se sentar
à sombra da minha alma...

domingo, 13 de março de 2011

Um leitor

Aprendi nas aulas de português um conceito de texto “ ...qualquer unidade de comunicação “.
Então eu percebi que eu já sabia ler desde antes de aprender um pouco das letras. O que todo bebê faz quando entende que está com fome ou com dor?Chora, simplesmente chora, e qual é a mãe que não entende? As pessoas, que são iguais, são, ao mesmo tempo, extremamente diferentes, e quem não percebe isso? A vida é um texto em sua totalidade, e cada um a vê por um ângulo diferente, próprio, por assim dizer. A natureza em si, é um texto perfeito. Para mim, os pássaros cantando na copa das árvores estão dizendo que o dia vem vindo ou está indo embora, e ao mesmo tempo denunciam o seu plano de me fazerem bem. O vento soprando é como o médico, diz: “ respira e inspira, devagar “. O feixe de luz que entra nos pequenos espaços nas telhas fala que é hora de acordar. O silêncio me afirma, de maneira categórica, que eu sou capaz de ouvir. O tempo, essa espécie de andarilho-fantasma, que não se vê , marca o nosso rosto a cada passo que dá nos ponteiros do relógio, caminhando para o infinito. A saudade desenha nas lembranças um quadro de uma paisagem que não mais existe. A moça bonita, de vestido, faz um convite com o olhar e com um sorriso, e lê-se: “eu também gostei de você “.  As paixões chamam o nosso peito e falam “eu sou de verdade, e você?” Ah! O mundo está todo apinhado de textos esperando por seus leitores, e estes, na escrita de suas próprias vidas, irão perceber que há textos que a única forma de traduzi-los é sentindo-os, sem sermos capazes de explicá-los...na mais pura contemplação do seu silêncio, o qual pertence única e exclusivamente a cada pessoa .














terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Elegia

Ontem eu percebi algo tão óbvio: as pessoas morrem!
Mas foi preciso tanto tempo para eu perceber isso, foi preciso acontecer tanta coisa.
Ver os chinelos escorados na parede, fazendo-me lembrar daquele jeito de caminhar, abrir o guarda-roupa e ver as blusas de botão, e sentir aquele cheiro trazer uma saudade monstro, daquelas capazes de amedrontar e entristecer qualquer ser com um pouco de sensibilidade. Andar descalço pela casa e perceber que os cômodos, juntos com o quintal, continuam do mesmo tamanho, mas agora, sem nenhuma explicação, estão tão grandes, tão vazios. Ver a escova de dentes e não ver mais aquele sorriso, ver esse sorriso numa foto, em cima da estante, e sentir uma camada densa de tristeza, levando um arrepio pela espinha, até chegar nos olhos. Ouvir o telefone tocar, com o mesmo toque de antes, e ouvir esta voz dizendo, sem dizer, que aquela voz não mais existe (apenas dentro de você). Deparar-me com pessoas que ainda não sabiam, e sentir mais uma vez a surpresa triste. Olhar para os óculos em cima da mesa e me lembrar daquele jeito único de olhar, segurar um presente que você recebera da pessoa, e ter a certeza de que você daria tudo, para que quem estivesse presente, fosse ela, e não apenas as muitas lembranças. Passar nas ruas e avistar alguém parecido, dando-lhe outra vez a constatação... a vida é curta demais, a vida é curta demais, mas a dor e a saudade, estas são gigantes.
(Desconfio que poucas coisas no mundo são mais verdadeiras que as lembranças )

                                      Carpie Diem*


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

lembranças

Numa madrugada desconhecida, eis que acordo, abro os olhos, o corpo ainda cansado por não ter dormido o suficiente. Começo a ouvir vozes e passos, passeando pela casa, luzes se acendem e percorrem o caminho até os meus olhos lânguidos. Procuro forças para me levantar, as encontro na lembrança de que pessoas que muito amei, irão embora em  poucos instantes.
Ouço a voz de alguém perguntar por mim, me levanto por completo, procuro minhas sandálias, que parecem perdidas, as encontro e logo depois passo a mâo pelo rosto, na tentativa inócua de limpá-lo dos poucos vestígios deixados por poucas horas de sono.
Abro a porta do quarto e me deparo com muitas malas e muita disposição nos gestos daqueles que irão partir. Parecem mais felizes do que eu. No momento, não sinto nada de especial, meu coração bate no mesmo ritmo e a minha vontade era mesmo de voltar a dormir, mas de súbito, meu coração entra em quinta marcha, não sei como, mas fico um pouco mais alerta.
A impressão que dá é  que a ficha acaba de cair e se quebrar, mesmo tendo certa resistência. Um calafrio sobe pelos pelos da minha perna, acho estranho, pois está uma noite cálida. As palavras se escondem de mim e o que me sobra é apenas um canto da casa me dando seu ombro frio para eu recostar. Fico atônito quando me passa pela mente que estive durante dias na presença de pessoas as quais, em outros tempos, foram as mais importantes da minha vida e talvez as que mais amei, mas agora, em virtude de ter deixado de vê-las por muito tempo, tais sentimentos tivessem se afogado no mar da distância e o fato de elas estarem me deixando, não me trouxesse nem um pouco de sofrimento. As horas passeiam rapidamente pelos ponteiros do relógio, enfim,a hora da partida chega: abraços, beijos, alguns rostos molhados e eu quase inerte, sem saber como agir, fico um pouco triste, olho para a minha vó, e ao me ver olhando-a,   ela vem e me abraça com força e ficamos a observar juntos as luzes nas traseiras  dos carros que levam para longe aquelas pessoas.
A dor que invade meu coração e a minha alma não provêm da despedida e muito menos da saudade, mas me apunhá-la com uma sensação a qual nunca havia experimentado: a morte de um sentimento que outrora fora proclamado eterno, mas que acabara de ser sepultado nas minhas lembranças.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Ele, que muitos já pensavam ser “um menino-homem”, nunca havia
sentido dor como aquela, mas num dia de chuva, ele se
descobriu cheio de carinho e ternura, e perguntou
para a avó se ela o deixaria fazer uma massagem
em seus pés, (que ele achava os mais bonitos do
mundo, só porque eram número trinta e quatro, pode uma coisa dessa ?)
ela, toda surpresa, disse que nunca havia recebido uma
massagem, e ele disse que não havia problema, faria
assim mesmo, pois já era um especialista no assunto
(mas na verdade,mal sabia o que estava fazendo).
Naquela tarde, ele teve a tênue impressão de que sete
décadas estavam caminhando pelas suas mãos, no mais
absoluto silêncio, e descobriu que com a ajuda das
pessoas que se ama, e com atitudes de simplicidade, é possível reinaugurar
felicidades, mesmo estando destruído por dentro, e então
sem perceber, o menino se tornou homem, numa tarde de chuva.


domingo, 24 de outubro de 2010

Olha ...eu preciso confessar: eu sinto muito.
Eh! Sinto muito, mesmo. Eu me importo com
cada coisa pequena, terrena, distante ou próxima,
que parece não ter importância, mas que eu me importo.
Ás vezes eu observo uma formiga tentando carregar
uma folha bem grande. Imagino o trabalho
que ela deve estar tendo para fazer aquilo .
E às vezes, quando a folha cai das “mãos” da formiga
, sinto uma pena. Dá uma vontade de ajudar, mas não
faço nada, apenas observo e sinto.
Há algum tempo eu encontrei um álbum bem
antigo que pertencia ao meu avô, e comecei a
ver pessoas e lugares que eu nunca cheguei a
conhecer, seus rostos, com sorrisos simples, suas
roupas, a vida simples, em casas mais simples
ainda, a satisfação simples de estar tirando
uma foto(Gente de verdade !).
Perguntei quem eram e ele foi me dizendo
o nome de cada uma, a importância de
cada uma, o papel que todos desempenharam
na vida dele. Depois disso ele parou por um instante.
Ficamos em silêncio (Deu até para ouvir o relógio martelando o tempo. A janela estava aberta e entrou um vento desses que leva um pedacinho da gente, e o meu avô...fundo, respirou e me inspirou saudade) Eu senti aquilo tudo, em fração de segundos, como se fosse meu, como se aquelas pessoas tivessem feito parte de toda a minha vida, como se eu soubesse os segredos delas e elas os meus, senti as risadas, as lágrimas, as discussões, a distância que as separava do meu avô, os sonhos e a dor. Fechamos o álbum e ele disse com tristeza, com muita tristeza, que a maioria daquelas pessoas não mais existiam, e as que existiam,
ele nunca mais havia visto. E eu disse:” vô, eu sinto muito, sinto muito mesmo” .

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Cada sentimento

Sei lá se é certo fazer o que faço, da maneira como faço, e ás vezes me arrepender...

Sei lá se os caminhos que as palavras seguem, são os mesmos seguidos pelo pensamento...

Sei lá se repetir as coisas é algo que agrada ou faz mal...

Sei lá se dar a resposta certa é o melhor, ou se seria melhor falar o que se pensa...

Sei lá se estou gostando de você ou se essa é mais uma brincadeira de um bobo coração...

Sei lá se paro no sinal verde ou se ando no vermelho...

Sei lá se te dou um beijo, ou se apenas imagino fazendo-o...

Sei lá se o momento que me cerca é o ideal para pensar em você...

Ou se pensar em você se tornou algo presente em todos os meus momento...

Sei lá...