Páginas

sexta-feira, 29 de julho de 2011




Quando criança, sempre ficava à espera do entardecer, pois era nesse horário que, no quintal da vizinha, começava o espetáculo dos pássaros. Muitos se recolhiam ao pé de jaca que lá havia, produzindo uma sonoridade que ecoava até os ouvidos do menino, e chegava  até os seus sonhos, fazendo-o  imaginar tantos outros mundos, outras vidas. Sentia vontade de voar também, e voava, com o sorriso, porém, ficava calado, apenas  escutando toda aquela confusão sadia . Gostava também de observar o por do sol, que alaranjava os seus olhos e o fazia sentir algo que ele só descobriria anos mais tarde: o prazer e o gosto pela poesia. A poesia do dia a dia, das lembranças, angústias, sonhos, a poesia do nada...
Mas anos antes de tal descoberta, ele sentiu-se traído, pois nem perguntaram se podiam destruir e levar embora aquilo que o fazia, às tardes e manhãs, presenciar o evento que já se  habituara: a sinfonia e orquestra passariniana. Simplesmente, derrubaram aquele símbolo, a moradia, o lugar onde, além dos pássaros, outros entes  que voam, também costumavam pousar : as pipas, que se perdiam no imenso e no infinito, até serem capturadas  pelo pé de jaca . Levou tempo para que ele se adaptasse  à nova paisagem, mais ampla, mas sem sombra, mais limpa, mas sem o cheiro bom e as folhas envelhecidas no chão . Tiraram um pedaço da vista daquele menino. Os anos se passaram as lembranças não, e parece ser por isso que hoje, toda vez que ele vê uma árvore grande, ele se sente voando...
...Voando para o passado.

domingo, 24 de julho de 2011



Da mulher que amo nada sou, e dos sonhos que tive, pouco possuo. Vejo as planícies e planaltos por onde o meu coração viajou, e nele há deserto e imensidão até onde a minha vista não alcança, mas também há coisas tão pequenas e sutis que quem pisa nem percebe, e não chega a ver a dor que se esfacela no desprezo. Da realidade que me achava certo, eu vivia como quem nada esperava, ou não sabia esperar, só vivia. De criança, apenas brincava, e minhas preocupações eram, para os outros, meras bobagens, e eu não sabia, mas o gosto das bobagens daquelas manhãs azuis de domingo nunca passou, e hoje, um estranho gosto de espanto me balança a alma, e é o mesmo que sinto quando o vento balança a roupa no varal, ou as folhas nos coqueiros. Hoje, o tal gosto de espanto, que eu desconheço a receita, tornou-me intenso e triste, realista, mas também sonhador, e me fez saber que a mulher que eu amo não existe, e que algumas pessoas são apenas sonhos que a gente tem, e que tudo isso, para os outros, continua a ser uma mera bobagem...
Olhe suas preferências:
ser tendencioso é a
maior das tendências.

sábado, 23 de julho de 2011

Sinto muito, mas preciso dizer isso:
o mundo é como nós o sentimos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Eu pensei que o meu amor fosse esperar, e que haveria tempo para que pudéssemos ajustar os nossos relógios no mesmo ponto. Eu achei que a esperança da sua presença, e esta, pudessem varrer a tristeza e o vazio que me sujam a alma. Pensei  ter encontrado em você uma boa seara para eu plantar as melhores sementes que há em mim. Pensei ser capaz de controlar o ciúme que me morde a garganta. Pensei em nós dois viajando um no outro, e nos perdendo, por nos desconhecermos. Pensei num horizonte de coisas para nós, só não havia pensado que eu fosse desistir tão facilmente da gente, e pelo simples fato de não ter certeza sobre o que você pensa e sente por mim.

(Estou partido, e quem é que nunca esteve? Estou partindo, e quem é que nunca partiu? Mas vou me recuperar, não é para isso que a vida serve?)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Nos lugares onde deixei crescer o
meu olhar eu não te vi em momento

algum, mas quando o meu silêncio
cresceu no aperto do meu passo, eu te
senti ao meu lado. Imagem quieta, mas
que caminhava comigo.
Acho que já te materializei dentro de mim.

sábado, 18 de junho de 2011


O dia adia o nosso encontro, pronto!
Eis as constatações:
De uns tempos para cá a vida
anda tão igual(ou será que fui eu que mudei?)
Nesse período, dias e noites foram
tocados com as mesmas notas, mas em
tempos diferentes.
Na TV, os mesmos programas de sempre,
trazendo o mesmo entretenimento,
e este, produzindo monólogos
que silenciam famílias.
Nas ruas, os carros correm, as pessoas
também, os corações batem, porém não
se tocam, as pessoas se olham mas não se veem ...

No meu peito há confusões
soluços e soluções convergindo
e criando um vento de vida.

Vejo um mundo que se tornou tonto,
(talvez por dar tantas voltas e não chegar a lugar nenhum)
Guerras explodem com proporções enormes, aqui e ali,
mas poucas pessoas sabem, e se sabem, pouco se importam .
O dia-a-dia sem você me permite
perceber o que me envolta, e tudo isso para eu saber
que se você estivesse por perto
eu estaria bem mais feliz.